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Transcription of a video by O. Ressler,
recorded in London, Great Britain, 37 min., 2003
Hoje enfrentamos uma crise multidimensional muito séria.
Essa crise afeta todas as esferas da vida. Em outras
palavras, trata-se de uma crise econômica, uma
crise política, uma crise social, uma crise ecológica
e mesmo uma crise cultural. Portanto a questão
é, existe algum desenvolvimento comum, quer dizer,
poderíamos encontrar uma causa comum para os
vários aspectos da crise? Para mim, a resposta
é sim. A causa é sempre a concentração
de poderes em vários níveis. É
a concentração de poder econômico,
que leva à crise econômica, de poder político,
que leva à crise política, e assim por
diante. A crise política é um subproduto
da dinâmica da democracia representativa. A Democracia
representativa não é um sistema que sempre
existiu - foi criada mais ou menos na mesma época
do sistema de economia de mercado, 200 atrás,
e a sua dinâmica nos tem levado à presente
situação, onde já não são
mais nem mesmo os parlamentos que tomam decisões,
já não são nem mesmo os governantes,
e sim claques em volta do presidente ou do primeiro
ministro que tomam todas as decisões importantes.
Isso gera uma imensa alienação. É
por isso que hoje não temos mais partidos políticos
de massa. As pessoas não se tornam membros de
partidos como acontecia antigamente. E mais: hoje muitas
pessoas já nem votam mais. Portanto, esta é
uma manifestação da fantástica
crise política que o sistema de democracia representativa
passa neste momento. Por isso, se formos atentar para
todos os aspectos da atual crise, veremos que a causa
final atrás dela está na concentração
de poderes, de alguma maneira. E é por isso que
carecemos de inclusão democrática, porque
a democracia inclusiva é a abolição
dessa concentração de poderes em nível
institucional, a abolição de concentração
de poder em todas as suas formas e é a criação
de condições de compartilhamento igualitário
de poder, de poder político, econômico
e assim por diante.
Sou Takis Fotopoulos, escritor e editor do jornal internacional
"Democracy & Nature" (Democracia e Natureza),
o órgão internacional da democracia inclusiva,
e tenho lecionado economia na University of North London
há mais de 20 anos. Gostaria de falar sobre o
projeto de democracia inclusiva e gostaria de começar
pelo seguinte: O que é democracia inclusiva?
Julgo importante ressaltar que o projeto de democracia
inclusiva é não é apenas um modelo
econômico, e sim um projeto político mais
abrangente, cujo objetivo é reformular a sociedade
em todos os seus níveis, no nível político,
no nível econômico, no nível social
e, é claro, na esfera ecológica. A meta
ampla da democracia inclusiva é criar uma sociedade
na qual as pessoas é que se determinam, elas
próprias, na qual, em outras palavras, o "demos",
como era sua conceituação clássica
para o povo, tem controle amplo sobre as esferas, política,
econômica, social, em geral.
Portanto, o projeto da democracia inclusiva, de certo
modo, é uma síntese das duas maiores tradições
históricas, a tradição socialista
e a tradição democrática, e também
das tendências que se desenvolveram nos últimos
30 ou 40 anos, os novos movimentos sociais, o movimento
feminista, o ecológico, os movimentos de identidade
de vários matizes, e assim por diante. Em outras
palavras, o projeto de democracia inclusiva é
uma síntese de todas essas experiências
históricas, da socialista e também da
tradição democrática e todos aqueles
neo-movimentos sociais. E, nesse sentido, pode-se dizer
que o projeto de democracia inclusiva não é
nem uma construção teórica, e sim
um produto de todas essas experiências históricas,
nem é uma utopia - e não o é porque
já existem tendências em toda nossa volta
nos conduzindo a uma sociedade na qual vários
aspectos se assemelham, em várias maneiras, à
sociedade de inclusão democrática. Em
toda a parte se desenvolvem experiências com instituições
alternativas e onde quer que exista uma insurreição,
como, por exemplo, a recente revolução
argentina, temos visto gente se aglutinando em assembléias
gerais e tentando organizar vida política e econômica
de acordo com princípios, como o princípio
-- que já irei explicar, que são os princípios
do projeto de democracia inclusiva.
Os quatro componentes da sociedade de democracia inclusiva
são: primeiro, a democracia política ou
direta; segundo, a democracia econômica; terceiro,
a democracia em todos os níveis sociais; e quarto,
a democracia ecológica. Por isso, vamos abordar
brevemente o que queremos dizer com cada um desses componentes.
A democracia política ou direta, significa a
autoridade do "demos", do povo, na esfera
política. Ou seja, a democracia política
implica em que é a coletividade do povo que toma
as decisões sobre todos os assuntos políticos,
de maneira direta, sem representantes, porque o que
chamamos de democracia representativa hoje é
uma falsa democracia, já que não pode
existir nenhuma representatividade da minha vontade,
da vontade de ninguém; quer dizer, pode-se expressar
a vontade diretamente, ou se pode simplesmente delegar
certos anseios que se tenha, porém não
se pode ter alguém que decida pela gente. Portanto,
a democracia política, ou direta, é o
tipo de sociedade onde as pessoas direta e coletivamente
decidem, por si próprias, sobre todos os importantes
aspectos da vida política. Isso significa que,
numa democracia direta, todo residente em determinada
área toma parte no processo democrático.
Vamos assumir que isso geralmente não represente
uma comunidade de mais 30 ou 50 mil pessoas.
Da mesma maneira que definimos a democracia política,
como a autoridade do demos sobre a esfera política,
podemos definir a democracia econômica como a
autoridade do demos sobre a esfera econômica.
Isso significa que é o organismo político,
isto é, todas as pessoas em idade madura - o
que é decidido em assembléias - todas
as pessoas de determinada idade decidem, tomam decisões
sobre todos os grandes problemas econômicos, particularmente
aqueles que afetem o atendimento às necessidades
básicas. Numa democracia inclusiva não
deverá existir propriedade privada de recursos
produtivos, dos meios de produção, mas,
em vez disso, os recursos produtivos é que devem
ser propriedade do demos, deveria haver propriedade
demótica dos meios de produção.
O terceiro componente da democracia inclusiva é
a democracia no nível social; quer dizer no micronível,
no nível do ambiente de trabalho, do domicílio,
do local de educação, e assim por diante.
Nesses locais, deveria haver democracia no sentido de
que exista distribuição igualitária
de poder. Não deveria haver distinção
entre pessoas trabalhando em determinado ambiente de
trabalho, não deveria haver nenhuma distinção,
deveria haver, em outras palavras, uma distribuição
do poder por igual entre homens e mulheres, entre mestres
e estudantes, ou alunos, e por aí vai.
E, finalmente, temos o quarto componente da democracia
inclusiva, o componente da democracia ecológica,
o que significa que a democracia inclusiva tem como
meta criar as condições subjetivas e objetivas,
de forma que cada homem seja reintegrado na natureza,
que a sociedade se reintegre na natureza. Isto é
importante porque o que vivemos hoje é uma situação
onde a sociedade está separada da natureza. Vemos
a natureza como instrumento para alcançar determinados
objetivos - o principal deles é o crescimento
econômico, é claro - e, como resultado,
sofremos a crise que temos hoje, uma séria crise
ecológica.
Assim, tendo visto o que é uma democracia inclusiva
e porque a necessitamos, a coisa importante que se segue
é ver como uma democracia econômica, que
dizer, como este componente básico da democracia
inclusiva vai funcionar, que tipo de instituição
podemos imaginar que nos garantiria igualdade na distribuição
do poder econômico. Isto é importante não
para receitar uma espécie de regime que viria
no futuro - isso é bobagem, porque de fato são
as assembléias democráticas do futuro
é que irão decidir a forma sob a qual
a instituição se comporia. Tudo o que
podemos fazer, aqui, é dar uma idéia de
por que tal sistema é viável, como poderia
funcionar, e fazer algumas propostas que implementariam
todos os princípios básicos que eu mencionei
antes.
O modelo, por conseguinte, da democracia econômica
que vou explicar em breve também representa uma
síntese - como todo o projeto da democracia inclusiva
representa uma síntese - representa uma síntese
de dois sistemas que já conhecemos no passado,
o sistema de planejamento, por um lado, e o sistema
de mercado, que ainda temos. O elemento básico
do sistema de planejamento, ou a meta básica,
como queiram, do sistema de planejamento era que ele
tinha como objetivo assegurar as necessidades básicas
de todas as pessoas. Por outro lado, o elemento básico
produzido ou apresentado por apoiadores do sistema de
mercado, como seu ponto forte principal, é a
liberdade de escolha. Todavia, nenhum dos dois sistemas
tem funcionado como na teoria. Isto é, o sistema
de planejamento, o sistema central de planejamento,
no Leste, criou algumas condições para
que as necessidades básicas de mais ou menos
todas as pessoas venham sendo atendidas, porém
isso não reflete nenhum tipo de democracia econômica
porque - como eu mencionei antes - as decisões
eram tomadas pela elite política. Também
o sistema de mercado não satisfaz os supostos
benefícios da liberdade de escolha porque é
ridículo falar em liberdade de escolha quando
as necessidades básicas não são
atendidas.
Portanto, a questão é: como podemos contar
com um sistema que, de um lado, assegura a satisfação
de todas as necessidades básicas de todos os
cidadãos e, do outro, que garanta liberdade de
escolha. Para tanto, a proposta do projeto de uma democracia
inclusiva é combinar o elemento planejamento,
que seria especialmente útil quanto a atender
às necessidades básicas, com o elemento
mercado - não no sentido de um mercado real,
como o de hoje em dia, mas no sentido de um mercado
artificial, que eu vou explicar dentro de alguns instantes.
Como está aqui neste diagrama simples ... no
fundo da pirâmide vê-se "os cidadãos
decidem". E ali pode-se ver que são os cidadãos
que decidem a produção, o consumo, decidem
o trabalho. Ou seja: todas as decisões importantes
estão sendo tomadas pelos cidadãos. Isto
não é acidental, porque não se
deve esquecer que se trata de um modelo de economia
sem estado, isto é, não pressupõe
um estado, não tem dinheiro, no sentido de que
não pressupõe dinheiro na maneira que
conhecemos hoje, e é sem mercado, no sentido
de que não existe mercado real e sim um mercado
artificial, e é basicamente os cidadãos
que decidem.
Portanto, vamos passar primeiro para o lado consumidor
da economia. E aqui pode-se ver que os cidadãos
decidem, como consumidores, como alocar sua renda, que
provém sob a forma de vales. Ou seja: os cidadãos,
como pagamento pelo trabalho que prestam à sociedade,
são remunerados por meio de vales. Agora pode-se
distinguir entre vales básicos e vales não-básicos.
Vamos começar com os vales básicos, à
direita. Podemos estimar o número de homens-hora
que o povo tem de oferecer à sociedade, à
comunidade, para que suas necessidades básicas
sejam atendidas. Os planejadores, em outras palavras,
calculados à base de estimativas sobre o que
sejam necessidades básicas - e o que sejam necessidades
básicas, é decidido democraticamente,
não objetivamente porque, se introduzirmos o
elemento objetividade, poderemos facilmente chegar a
todos os tipos de decisões arbitrárias
- portanto, os cidadãos decidem, democraticamente,
quais são as necessidades básicas e também
qual deve ser o nível de satisfação
para que as necessidades básicas, digamos, alimentos
ou roupas, ou seja lá o que for, sejam atendidas.
Portanto, à base de estimativas sobre o tamanho
da população e o direito de cada cidadão
por determinadas necessidades básicas por um
lado, e por outro à base de médias tecnológicas,
poderemos saber qual é o número total
de horas básicas que devem ser ofertadas a uma
comunidade de, digamos, 30 ou 50 mil pessoas para que
suas necessidades sejam atendidas.
Os vales não-básicos são emitidos
para os cidadãos que gostariam de trabalhar acima
do mínimo necessário para atender às
necessidades básicas. Digamos que os planejadores
tenham estimado que todo mundo tem de trabalhar três
horas por dia para que todas as necessidades básicas
sejam atingidas. Se alguém quiser trabalhar mais
do que três horas, seja no mesmo ramo de atividade,
seja noutro, então ele será recompensado
por isso com vales não-básicos, que podem
ser utilizados para adquirir mercadorias - produtos
e serviços de natureza não-básica.
A pergunta que surge a respeito de vales não-básicos
é como podemos determinar as taxas de troca.
Em outras palavras, o "preço" válido
para os vales não-básicos. Para os vales
básicos não há problema, já
que todo mundo sabe que é preciso trabalhar um
número mínimo de horas para atender às
suas necessidades básicas. Mas com vales não-básicos
surge a questão sobre em que consiste a remuneração
justa. Bem, aqui podemos levar em conta - e é
por isso que falei antes de um mercado artificial -
podemos levar em conta as condições de
demanda e oferta do passado. Em outras palavras se,
digamos, um móbile se caracteriza como necessidade
não-básica por assembléias e se
- digamos - nos últimos seis meses nessa comunidade
tem havido oferta de, suponhamos, 100 000 vales não-básicos
na compra de móbiles, com esses 100 000 vales
as pessoas poderiam comprar 1 000 móbiles, porque
essa era a produção total de móbiles,
então, se dividirmos o número de vales
utilizados na aquisição de móbiles
pelo número de móbiles produzidos, temos
100. Portanto, o preço de um móbile é
100 vales não-básicos. E, da mesma forma,
podemos chegar ao preço de quaisquer outras utilidades
não-básicas. Em outras palavras, levando
em consideração que a produção
aconteceu durante um determinado período de tempo
e também qual foi a demanda por esse tipo de
produto ou serviço. Desta maneira, portanto,
começamos com a demanda atual e as atuais condições
de suprimento, em vez de - e aqui está o grande
problema da maioria dos sistemas de planejamento - em
vez de perguntar às pessoas anteriormente o que
elas desejariam comprar e depois calcular de acordo,
por meio de um mecanismo de planejamento, o que deve
ser produzido. A desvantagem desses tipos de planejamentos
é que as pessoas têm de decidir seis meses
ou um ano antes o que exatamente irão comprar
o que, naturalmente, é algo que afeta seriamente
a liberdade de escolha.
Então passemos ao lado da produção,
da economia. Como pode-se ver, por um lado os cidadãos
decidem as metas de produção em assembléias
demóticas, e por outro, em assembléias
no ambiente de trabalho. Agora, as assembléias
demóticas são, talvez, o mais importante
organismo decisório da democracia inclusiva.
É na assembléia do demos, a assembléia
do organismo-cidadão de determinada área.
A assembléia demótica toma as decisões
sobre todos os aspectos da vida econômica, política
e social, e particularmente da economia. Ela decide
sobre a base do plano designado no nível confederado,
que já veremos num momento. Embasando-se na orientação
do plano de instruções confederado, como
vimos antes, ela estima quais seriam as necessidades
básicas do povo e quantas horas cada um teria
que trabalhar. Portanto, à base dessas instruções,
as assembléias demóticas passam comandos
às várias assembléias de postos
de trabalho sobre quais são as tarefas - quer
dizer, o que deve ser produzido para atender às
necessidades do povo.
Entretanto, tanto as assembléias demóticas
como as de produção restringem-se ao nível
local. Temos, porém, de pensar que também
existem problemas relevantes de ordem regional ou nacional,
ou até mesmo de ordem continental. Por isso também
carecemos do que podemos chamar de assembléias
regionais, como se pode ver no diagrama, que decidem
sobre que problemas não podem ser resolvidos
em nível local. Porque, em princípio,
todas as principais decisões são tomadas
em nível local, porém existem problemas
que não podem ser resolvidos nesse nível
- pensem em transporte, energia, comunicação.
Não se pode resolver esses tipos de problemas
em nível local, portanto deveria existir uma
assembléia regional consistindo de delegados
das assembléias demóticas - que não
toma decisões. Isto é importante, porque
a assembléia regional é um conselho administrativo
e não um organismo de políticas. Lembrem,
temos delegados, não representantes, portanto
a partir das assembléias um número de
delegados é eleito para as assembléias
regionais, a fim de implementar as decisões tomadas
pela assembléia demótica.
Finalmente temos as assembléias confederadas,
que são os órgãos econômicos
mais altos da democracia inclusiva. E isto quer dizer
que a democracia inclusiva não pode trabalhar
apenas em nível local. A menos que as assembléias
locais forem reunidas numa espécie de democracia
inclusiva confederada, não terá sentido
falarmos sobre qualquer alocação de recursos.
Na verdade, eu diria que as três condições
da democracia econômica são: primeiro,
o que mencionei anteriormente, a propriedade demótica
dos meios de produção; segundo, sua autonomia,
ou seja: cada comunidade local deveria ser autônoma,
não no sentido de autarquia - a autarquia é
impossível nos dias de hoje - mas no sentido
de confiar em seus próprios recursos a fim de
atender a tantas necessidades quanto possível;
e o terceiro princípio importante implícito
por este modelo de economia econômica, é
a alocação confederada de recursos, a
alocação de recursos tendo lugar em nível
confederado.
Numa sociedade livre, a questão é quem
vai executar os trabalhos desagradáveis e como
poderemos atender à demanda e suprimento quando,
digamos, mais pessoas gostariam de empregos mais agradáveis
em contraposição aos outros tipos de trabalhos.
Agora, uma solução que tem sido sugerida
é a idéia de complexos de empregos, ou
seja: que as pessoas possam realizar uma série
de trabalhos. Em outras palavras, podemos expandir o
significado do emprego, ou tipo de emprego, para que
inclua vários, tantas tarefas quanto possível.
Por exemplo, se você trabalhar num escritório,
você poderá datilografar mas, ao mesmo
tempo, será capaz de se envolver em outros tipos
de trabalhos mais interessantes, tanto no escritório
como também no processo decisório, e assim
por diante. Portanto, neste sentido, a idéia
do complexo de empregos exclui o problema de como podemos
escolher trabalhos em determinadas categorias de atividade.
Mas, mais uma vez, não se trata de panacéia,
quer dizer, podemos imaginar que existem tipos de atividades
nas quais a idéia do complexo de trabalhos poderá
não funcionar, principalmente se for necessário
um alto grau de treinamento e competência a fim
de executar especificamente esse trabalho. Não
consigo conceber um complexo de trabalho para um cirurgião,
ou para um piloto, não consigo imaginar um cirurgião
fazendo a faxina, nem ajudando a enfermeira a dar injeções,
porque seria uma perda de seu tempo e do tempo da sociedade,
que é até mais importante. Logo, deveria
haver algumas outras maneiras de expressar os anseios
do povo no que diz respeito ao tipo de atividade que
forem escolher.
Quanto ao tipo de trabalho não-básico,
há um sistema proposto pela democracia inclusiva
que poderia resolver esse tipo de trabalho. Mas, com
respeito ao tipo básico de trabalho, acho que
a única solução é que a
resposta a este sério impasse entre demanda e
suprimento seria a rotatividade, isto é, que
as pessoas executassem vários tipos de atividades
em rodízio, de modo que a pessoa pegaria no pesado,
como uma obra ou uma mina e, depois, voltaria a um rodízio
- seria uma maneira. Uma outra maneira seria que fosse
gratificada a pessoa que estivesse fazendo trabalhos
de menor demanda, à base de vales não-básicos
acrescentados àqueles que a pessoa deveria receber
de qualquer maneira.
Se subirmos, no diagrama, notaremos que temos, à
esquerda, o índice de desejo e, no outro lado,
os preços de bens e serviços não-básicos.
Estes são os dois elementos básicos que
determinam a taxa de remuneração do trabalho
não-básico. O índice de desejo
é um índice complexo que mostra os anseios
das pessoas com referência a vários tipos
de trabalho. Primeiro vamos dar uma olhada nesse índice:
podemos projetá-lo como uma função
inversa do desejo, no sentido de que quanto mais desejarmos
um trabalho, ou um tipo de trabalho, menor será
a remuneração para que, aqui, possamos
ter de um lado o atendimento dos anseios do povo e,
do outro, o atendimento das necessidades da sociedade,
no sentido de que as tarefas não-desejáveis
fosse melhor remuneradas - digamos, um operário
ou um mineiro, deveriam receber remuneração
maior que, talvez, um professor de universidade, porque
esse tem mais satisfação em seu trabalho
que um operário ou mineiro. Além disso,
e isto é importante, temos aqui um mecanismo
de ajuste em ação porque, digamos que
num determinado tipo de atividade não exista
muita oferta para trabalhos não-básicos
se, suponhamos, não haja muitas pessoas interessadas
em fazer horas extras na produção de móbiles,
novamente, então quer dizer que isto se refletiria
no preço dos móbiles, o preço destes
subiria à medida em que sua produção
diminuísse. Por conseguinte, o preço dos
móbiles subindo, a taxa de remuneração
subiria, e isto atrairia mais trabalhadores na produção
de móbiles.
Portanto, seria assim, em resumo: como este modelo
de democracia econômica funcionaria. Mas, como
disse no início, trata-se apenas de uma proposição
para demonstrar que é viável ter-se um
tipo diferente de sociedade atendendo às necessidades
básicas de todos os cidadãos e, ao mesmo
tempo, atender à demanda pela liberdade de escolha.
E, é claro, cabe às assembléias
gerais do futuro decidirem exatamente que forma de sociedade
deveria existir.
Finalmente, a questão crucial a considerar é
como poderemos passar à democracia inclusiva,
ou seja: como visualizar uma estratégia de transição,
a respeito deste tipo de sociedade.
Julgo que o princípio básico que deveria
guiar nossos passos é que os meios têm
de ser coerentes com os fins. Portanto, necessitamos
de um novo tipo de organização política
que garanta atender às demandas básicas
da democracia direta. Isso exclui qualquer tipo de partidos
políticos de avant-garde e hierárquicos,
e assim por diante. O que se carece, em vez disso, é
um novo movimento de massa baseado em organizações
- mais ou menos - autônomas que fossem confederadas,
é claro, que começassem a construir instituições
de democracia inclusiva, inclusive nas suas próprias
regiões.
Em outras palavras, eu consigo visualizar a transição
a uma democracia inclusiva empregando dois tipos de
táticas ou, como queiram, estratégias:
por um lado, a costumeira estratégia defensiva
da esquerda, o que significa tomar parte em lutas de
classe, de pessoas que geralmente são contra
os ataques da globalização neo-liberal.
Isto, porém, é apenas uma parte do problema,
no meu entender. A outra parte igualmente importante,
talvez até mais importante, é a luta positiva,
aquela que envolve erguer instituições
alternativas dentro da atual sociedade.
Na verdade este processo já começou,
quer dizer, pode-se ver em toda a parte cooperativas
se estabelecendo em vários grupos, comunas, etc.,
esquemas de aliança entre países anglo-saxões,
por meio das quais o povo - particularmente os desempregados
- evitam o uso de dinheiro e associam seus serviços
diretamente a outros serviços - de modo que existe
toda a sorte de esquemas semelhantes em andamento, no
momento. O problema é que todos esses esquemas
não fazem parte de um programa político
abrangente de reforma política.
Quanto a isso, eu não hesitaria nem mesmo se
esses grupos, estas equipes de pessoas que já
começaram a criar essas instituições,
tomassem parte em eleições locais. Em
outras palavras, se essas pessoas concorressem a eleições
visando programas de democracia inclusiva ou, de um
modo amplo, um tipo de programa abrangente de democracia
- e isto pressupõe que já se tornou massiva,
no sentido de que o movimento já atrai significativamente
o povo - que, se vencerem as eleições
locais, essas pessoas terão em mãos uma
oportunidade perfeita para aplicar ou implementar, em
nível local, os princípio da democracia
inclusiva. Ou seja: se apossariam do poder local para
aboli-lo, como queiram, no dia seguinte, no sentido
de que uma vez tendo tomado posse em nível local
então seriam capazes de, a partir do dia seguinte,
começar a organizar o povo em assembléias
de vizinhos que tomariam a si o poder, em vez de este
ficar com conselhos municipais, e assim por diante.
A importância desta estratégia de transição
do projeto de democracia inclusiva é que a nova
sociedade não será estabelecida, de maneira
alguma, exceto se a maioria da população
tenha já apoiado o projeto. Exceto, em outras
palavras, que já a tenham adotado, valendo-se
das instituições alternativas em prática,
e tomado consciência democrática. A menos
que a maioria já se tenha integrado numa nova
sociedade deste tipo, essa sociedade não surgirá.
Quando for chegado o momento em que o poder venha de
baixo, esse poder que se iniciou embaixo, se torne mais
poderoso que o poder das autoridades normais, ou seja,
capitalistas, o estado, e assim por diante, então,
após um período de tensão entre
o estado e a elite capitalista - de um lado - e o povo,
auto-organizado dessa maneira - do outro - então
se poderia esperar estar acontecendo uma transição,
que poderia ser violenta ou não. Quer dizer,
seria violenta se as elites, como é possível,
atacassem esse tipo de experiência valendo-se
de várias espécies de força - não
necessariamente de força física, até
mesmo força econômica às vezes pode
ser suficiente. Mas pode não ser violenta, quer
dizer, tudo depende do curso do equilíbrio de
poder no momento da transição.
Tradução: Itaucultural Institute,
Sao Paulo
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